Embora
o assunto Ciência e Tecnologia venha sendo cada vez mais discutido na
sociedade, a participação dos setores produtivos na produção científica
ainda é incipiente. Para o empresário e presidente da Federação das
Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), Flávio Azevedo, o
empresariado precisa conhecer e investir mais em inovação – de produtos e
de processos. E para isso a parceria com as universidades e
pesquisadores é fundamental. Esse será um dos assuntos discutidos na
próxima edição do projeto Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do
Norte – uma realização da TRIBUNA DO NORTE, Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, Fiern, Fecomércio/RN, RG Salamanca Capital e Governo do
Estado, com patrocínio da Petrobras, Assembleia Legislativa e Cosern. O
evento está em seu quarto ano de realização e para esta 9ª edição o
tema escolhido foi Inovação e Tecnologia. O seminário será realizado no
próximo dia 11 de abril, no auditório da reitoria da UFRN, a partir das
8h. As inscrições podem ser feitas gratuitamente pelos telefones
4006.6120 e 4006.6121 – as vagas são limitadas.
alex régis
Hoje,
pela primeira vez, encontramos um respaldo para que o empresário possa
pesquisar. Esse espaço não existia há alguns anos. E não me refiro só às
oportunidades, mas também às linhas de crédito criadas.
Como é a relação entre a indústria no Rio Grande do Norte hoje com a inovação? Muito
tem-se falado em inovação, mas é preciso conceituar. Você pode inovar
um produto ou pode inovar um processo. Como se inova um produto? Você
pode inovar de forma muito simples – através de um novo design, ou
inovar transformando o produto em um objeto de desejo com uma campanha
publicitária, por exemplo. Então, nesse caso, o produto se moderniza. Eu
não considero adequado falar em inovação de um produto, mas em
modernização. A inovação precisa estar focada no processo. Para se fazer
um produto mais barato, mais eficiente, e sobretudo, mais competitivo. E
para ele ser mais competitivo ele também precisa ser mais eficiente e
mais barato. Então, inovação tecnológica é fator de competitividade. E
só se gera competitividade no processo, que por sua vez resulta no
produto. Então a maior importância da inovação tecnológica é na
competitividade da empresa. Ela é fator de competitividade e eu entendo
que em breve será fator de sobrevivência.
Por que fator de sobrevivência?É
aquela história da aldeia global. O mundo cada dia fica menor, a cada
dia os processos de logística se simplificam e se barateiam. Mas o
grande problema é mostrar ao empresário brasileiro e nordestino que a
inovação pode significar um fator de competitividade. É uma questão
cultural. Conseguir convencer o empresário de que o conceito de que
“time que está ganhando não se mexe” é um conceito ultrapassado é muito
difícil. Há um choque cultural aí. E esse choque não se limita ao dono
da empresa, mas da empresa inteira. E aí, quando se ultrapassa a decisão
gerencial e se chega dentro da empresa, também temos que enfrentar a
resistência do funcionário. Aqui no Nordeste temos uma dificuldade
grande na área de educação. E para se trabalhar com competitividade
precisamos começar na área da educação. Então na maioria das vezes temos
funcionários mal treinados, mal formados – pela própria deficiência não
da classe empresarial mas sobretudo por falta de estrutura da educação
pública. Aí o empregado passa a encarar a inovação como um adversário.
Aí temos uma imensa dicotomia – ou eu ou a inovação tecnológica. “Será
que vou perder meu emprego”, ele se pergunta. Aí o empresário tem uma
dificuldade imensa de conseguir contornar isso. Por isso, o trabalho da
imprensa e a divulgação do conceito saudável de inovação tecnológica é
fundamental. Precisamos dar foco a esses processos de inovação
tecnológica para disseminar na sociedade essa cultura. Não é só
possível, mas é necessário. Tudo isso faz parte de um processo que
começa no chão de fábrica e vai até a pesquisa científica.
Como o senhor avalia o posicionamento do país nesse contexto?Esse
é o grande problema dos países emergentes. Por um milagre o Brasil
conseguiu chegar a essa lista, sem investir em pesquisas científicas. A
Índia faz pesquisa, a China faz pesquisa, a Rússia faz pesquisa. Dos
quatro componentes do BRIC, o único país onde a pesquisa é incipiente,
quase inexistente, dentro da área empresarial é o Brasil. Quem faz
pesquisa aqui são as universidade e é o Estado que banca esses estudos.
Empresa privada não faz pesquisa. Não existe a cultura da pesquisa no
empresariado, o que é um equívoco. Porque é a pesquisa que gera a
inovação. E esses países já chegaram a um nível tal de excelência que as
inovações tecnológicas surgem de processos inesperados. E é importante
citar que essas pesquisas já se tornaram rentáveis. Então quando a
TRIBUNA DO NORTE coloca a inovação tecnológica como motor do
desenvolvimento é um fato muito positivo para a sociedade e para a
economia como um todo.
E existe estímulo para o empresariado fazer parcerias com universidades e pesquisadores a fim de inovar os processos? Hoje,
pela primeira vez, encontramos um respaldo para que o empresário possa
pesquisar. Esse espaço não existia há alguns anos. Não me refiro só as
oportunidades mas também as próprias linhas de crédito que existem hoje
no âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia, através do Finep e do
BNDES. O BNDES, inclusive, tem linhas de financiamento para se pesquisar
o que quiser e com dinheiro sobrando, porque não tem demanda. Hoje
existe a oportunidade, existe o “dinheiro barato”. Alguns recursos são
disponibilizados a fundo perdido, desde que tenha um pesquisador
envolvido.
E o que está faltando? As
pesquisas acadêmicas, desenvolvidas nas universidades do mundo inteiro,
na maioria das vezes, podem se transformam em pesquisas aplicadas, mas
falta um empurrão de quem tem o tino para fazer isso, que é o
empresário. No Nordeste você tem um empresário com coragem de arriscar
os recursos disponíveis e altíssima capacidade empreendedora, mas sem o
outro lado que é a pesquisa. Aí temos as universidades que são celeiros
de cérebros mas que não têm a capacidade empreendedora. É só juntar a
fome com a vontade de comer. Eu venho tentando fazer isso há algum
tempo, mas é claro que existem as reações. Por incrível que pareça ainda
existe aquela parte ideológica, da oferece resistências a essa
parceria. De um lado o cientistas que que teme parcerias com o
empresariado, de outro o empresário que não quer se envolver com
cientistas. Então as partes carregam um estigma que precisa ser
ultrapassado. É um processo difícil porque é uma questão cultural.
Nesse contexto também existe a questão financeira? A maioria das empresas do Estado são de pequeno e médio portes, elas têm recursos para investir em pesquisa? Isso
está ultrapassado. Como eu disse, existem linhas de financiamento que
oferecem dinheiro barato. O que não se pode é se meter em uma aventura. O
Senai é um bom exemplo disso. É preciso ser muito rigoroso na escolha
do projeto, da pesquisa que será financiada para evitar que esse
recursos seja desviado. E daí a importância do pesquisador está dentro,
para fiscalizar a aplicação dos recursos na pesquisa dele.
Há algum setor com maior necessidade de investimento em inovação? Não
existe setor mais apropriado ou mais ou menos carente para receber
inovação tecnológica. Ela é importante para todos os setores. Aqui no
Rio Grande do Norte somos carentes de inovação em todos os segmentos da
economia. E inovação não é só máquina e equipamento não. Inovação também
é ideia. Inovação do produto. Agregar valor e agregar conceito ao
produto. Qualquer segmento da indústria nacional tem espaço para se
fazer inovação tecnológica – tanto nos produtos quanto nos processos.
Como está a inserção dos pesquisadores nas empresas? A
maioria dos produtos financiados pelo Ministério da Ciência e
Tecnologia exige o pesquisador junto com o empresário, dentro da
empresa. Isso foi uma modernização – antigamente exigia a participação
da universidade. E era uma burocracia imensa. Isso já é um avanço. O
segundo passo é o dinheiro que, antes, ia para a mão do pesquisador, que
também não funciona. O modelo ideal é este que está aí que proporciona a
parceria entre os entes envolvidos. Apesar disso, a participação dos
empresários ainda está baixa. Algumas empresas sequer conhecem pesquisa e
não sabem que existem linhas de financiamento específicas. O trabalho
da imprensa é fundamental nesse sentido de divulgar.